
No longínquo ano de 1909, centenas de homens ainda trabalhavam na construção da Estrada de Ferro, que ligaria São Paulo ao Rio Grande do Sul.
A mata virgem a beira da ferrovia, era o paradeiro de muitas empecíeis de animais, além dos índios que acompanhavam de longe aquele movimento de gente. No povoado de Osman Medeiros, a Serraria da Lumber serrava sem parar, aos poucos os enormes pinheiros araucárias desciam ao chão pela força dos caboclos que impulsionavam uma serra, o suor ?escorria? do rosto cansado, a Lumber esperava a madeira, o guincho estava estacionado esperando o momento para resgatá-las do meio das matas e carregar os vagões.
No mês de abril, o frio já castigava o povoado, mas depois de uma forte geada o sol brilhava no céu, muitos estavam ansiosos, pistoleiros exibiam suas carabinas e revolveres calibre 45, em coldres baixos e chapéu próximo dos olhos (parecia um povoado do velho oeste), naquele dia passaria o Presidente da República pelo povoado. Não demora e o Trem presidencial chega à estação, homens com ?grossos? casacos descem dos vagões, retiram crianças e caboclos da plataforma, depois desce um senhor de bigode e óculos, é o presidente Affonso Penna.
Miguel Calmon vem em seguida. Os americanos correm cumprimentar o chefe da nação, percorrem o povoado, visitam a enorme serraria da Lumber. Depois da visita retornam para a estação, momento em que o presidente inaugura denominando-a de ?ESTAÇÃO MIGUEL CALMON?.
Cinco anos depois o povoado é arrasado, se transforma em uma enorme fogueira, ?Chico Alonso? começa a sua vingança.
Dias depois, cinza e ferro retorcido pelo calor, corpos espalhados pelo chão é a visão daquela ?cidade fantasma?. Soldados e pessoas que por ali passaram, viram animais dilacerando o que restava dos corpos de muitos americanos, trabalhadores da serraria, entre eles, muitos inocentes que tombaram naquela tarde de cinco de setembro de 1914.
Em 1915 tudo é reconstruído novamente, o ?colosso da Lumber? (serraria), a estação no mesmo padrão, casas, tudo recomeça.
A partir dali, muitos fatos aconteceram, muita história foi contada a beira de um fogão a lenha nas noites de inverno, ou na varanda das casas nas noites quentes de verão. ?Naquele tempo, os jagunços eram muito maltratados, os bandidos da ?lumbe? matavam os homens e abusavam das mulheres, quando não matavam as crianças? contava meu pai Pedro Ferreira, enquanto assava pinhão na chapa do fogão.
O tempo passou, as crianças cresceram, Calmon foi emancipado, chega o ano de 2009, quando se completaram 100 anos da existência da pequena cidade. Em abril de 2010, 101 anos, em dezembro a estrada de ferro completa 100 do término da sua construção, os heróis anônimos continuam trabalhando, escrevendo para que a história não morra.
Entre eles podemos citar: Nilson Thomé, Delmir Valentini, (Caçador), Fernando Tokarski (Canoinhas), Enéas Athaná ;zio (Balneário Camboriú), Nilson César Fraga (Curitiba), Elói Tonon, José Fagundes, Sergio Buck, Aluisio Witiuk (Porto União), Vilmar Sassi, Marli Auras, Paulo Derenkoski, Walter Cavalcanti, o cineasta Sylvio Back, Zeca Pires e tantos outros.
Dizia uma senhora durante uma entrevista para meu novo livro: ?Ninguém dá bola para o que nós falamos, pensam que tudo é mentira?.
Nos meus seis anos de idade, eu ouvia as histórias e pensava, quando poderei contar melhor a história dos ?jagunços?? Cresci ouvindo as várias serrarias serrando, caminhões transportando madeiras. Em 1994, convidei meu colega de escola, Antonio Joel Ribeiro e, o saudoso companheiro Mauri Araújo, momento em que ?nascia? o Grupo Resgate.
Naquele tempo, ninguém sabia explicar o porquê da cidade denominar-se CALMON. Alguns diziam que era um caboclo da região, outros afirmavam ser um morador do povoado entre outras afirmações. A partir dali, todo sábado as pesquisas eram realizadas, filmadora, câmeras fotográficas, blocos de anotações, ferramentas, café, lingüiça, e outras guloseimas para passar o dia. Quantas descobertas, natureza, cachoeiras, velhas estações, estrada de ferro onde o guincho entrava para retirar madeiras, mun ições, espadas entre outros achados.
As entrevistas para o Jornal Resgates foram muitas, com o tempo o grupo foi crescendo, atualmente reduzido, continuo com o trabalho, hoje ao lado dos meus filhos e esposa. A nossa história não pode ser esquecida, vem ai o segundo livro deste jornalista, com o nome provisório de: NARRATIVAS E HISTÓRIAS DE UM POVO.
17/06/10
Fonte: João Batista Ferreira dos Santos. (JB).